| Tudo
corria bem. Fortuna adquirida em contratos públicos impulsionava o progresso
no campo. Produção e trabalho brotavam da terra. Quase uma centena
de pivôs de irrigação, mais a pecuária integrada movimentavam
7 mil pessoas. Uma verdadeira cidade rural.
O
império agropastoril da Itamaraty começou a ruir em 1995. Má
gestão se somou ao custo trazido pelo Plano Real. Com inflação
galopante, a ciranda financeira remunerava mais que a produção.
Estabilizada a economia, as dívidas se tornaram reais. Muita gente quebrou. Em
2001 o Incra adquiriu metade da Fazenda Itamaraty, elaborando um projeto de assentamento
para 1.140 famílias. Em 2003 arrematou o restante, atendendo mais 1.700
famílias de sem-terra. A transação, negociada, foi caríssima,
cerca de R$ 200 milhões. Tudo se justifica, todavia, em nome da reforma
agrária. Elaborado
pelo Idaterra, órgão do governo estadual, o plano de desenvolvimento
do Assentamento Itamaraty chega a emocionar seu leitor. Avançada agronomia
se mistura com ideologia da libertação. Começa por citar
Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia: "Desenvolvimento é o
aumento da capacidade de os indivíduos fazerem escolhas." Perfeito. Invasores
de terras partiram para o "diagnóstico participativo". Ex-bóias-frias
e desempregados urbanos, gente excluída, são chamados a decidir
sobre sua exploração agropecuária. Conforme se gaba no documento
oficial, constroem juntos o conhecimento. É bonito. Planeja-se
tudo, desde a subsistência familiar até a agroindustrialização
local, incluindo a logística. Mas a grande sacada reside na organização
do labor: implanta-se o trabalho coletivo. Nas áreas comunitárias,
irrigadas, se cultivará a solidariedade socialista. Será? Como
diria Joelmir Beting, na prática a teoria é outra. Passados quatro
anos de experiência concreta, quem visita o Assentamento Itamaraty teme
pelo futuro. Os níveis de produção são baixíssimos,
a qualidade de vida, sofrível. Campeiam a prostituição e
a corrupção. Dá pena de ver. Lotes
são vendidos a céu aberto. No Assentamento I, mais antigo, estima-se
que 30% das terras já tenham trocado de dono. No Assentamento II, recente,
o comércio fundiário se instala. Defronte à Sta. Virgínia,
a benesse custa R$ 15 mil, com casa novinha em folha. Mais: quem comprar se habilita
a receber, do Incra, novos créditos agrários. De graça. Nada
funciona, porém, sem a comissão do chefe. Sendo tudo irregular,
a propina corre solta. Como passe de mágica, autoridades públicas
não tomam conhecimento das transações. Seguem o modelo do
Assentamento Dorcelina Folador, pioneiro na região, onde metade dos lotes
já se foi. Fulano do município de Dourados já comprou oito
lotes. Mas ninguém sabe de nada. Pior
é a subserviência. Quase 11 mil pessoas se encontram subordinadas
a três fortes organizações políticas, MST, CUT e Fetagri.
Estas se subdividem em dezenas de grupos políticos, arregimentando 30 a
50 famílias cada. Os articulados chefetes mandam a rodo. As assembléias
decisórias envergonhariam o indiano Sen, ideólogo do desenvolvimento
com liberdade. A
grande jogada econômica reside no arrendamento rural. O frágil sucesso
do assentamento da Itamaraty depende de esquema de corrupção jamais
visto na reforma agrária. Ocorre que as áreas de exploração
supostamente coletivas se encontram cedidas a produtores da região. Afirma-se
por lá que, dos 87 pivôs de irrigação, cinco são
conduzidos pelos próprios assentados. Os demais são explorados por
forasteiros. Os
agentes públicos conhecem a maracutaia, mas entendem que, embora proibido,
o arrendamento configura a melhor forma de assegurar renda às famílias
assentadas. Assim, ou fingem não ver ou participam do esquema financeiro.
A renda é paga diretamente ao chefe do grupo, que a reparte entre os apadrinhados.
Parece divisão de furto. Soja,
milho, algodão e mamona saem da Itamaraty como se gerados fossem pelo assentamento.
Nessa ilusão produtiva, a pecuária também encontra seu nicho.
Por R$ 7/cabeça/mês se alugam pastagens de capim braquiária.
Preposto do frigorífico de Ponta Porá, só ele, detém
800 bois na área reformada. O socialismo agrário transforma-se em
grossa picaretagem. A
triste realidade se impõe ante o planejamento idealizado. Há, sim,
tentativas sérias de aprimoramento técnico. Curiosamente, todavia,
uma ONG carioca venceu a licitação para fornecimento de assistência
agropecuária aos assentados. Na seqüência, fez uma triangulação
financeira e repassou a tarefa para quatro entidades locais ligadas à CUT
e ao MST. Tudo muito estranho. Quando
o presidente Lula visitou o Assentamento Itamaraty, em 2003, entusiasmou-se e
galgou uma colheitadeira. Feliz, iniciando o governo, afirmou que faria ali uma
reforma agrária exemplar. A máquina que ele pilotou, entretanto,
não pertencia aos assentados, mas, sim, aos forasteiros da malandragem. Ninguém
teve a coragem de contar ao presidente. Até hoje ele não sabe de
nada. *Xico
Graziano, agrônomo, foi presidente do Incra (1995) e secretário da
Agricultura de São Paulo (1996-98). E-mail: xico@xicograziano.com.br.Site:
www.xicograziano.com.br |