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presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo, afirma que a mandioca "nunca
teve o apoio de ninguém, ao contrário do café e da cana-de-açúcar".
Na prática, propõe criar reserva de mercado para os produtores. O
Brasil é o segundo maior produtor mundial, com 27 milhões de toneladas/ano
da raiz. Uma montanha. Perde apenas para a Nigéria. Esse enorme volume,
todavia, se reduz na extração do amido, também conhecido
como fécula ou polvilho. As
fecularias nacionais extraem 500 mil toneladas/ano do branco e fino amido de mandioca.
Caso a mistura se tornasse obrigatória, essa quantidade teria de dobrar.
Argumenta-se que ajudaria a agricultura familiar, criando 100 mil empregos no
campo. Vai saber. Ao
mesmo tempo, a adição reduziria, em parte, a dependência das
importações. Só em 2006 o Brasil deve importar 60% dos 10
milhões de toneladas de trigo que consumirá, ao custo de US$ 800
milhões. Não é pouco. Faz
bem valorizar o produto nacional. A mandioca é produto caboclo, alimento
básico desde os indígenas. O trigo, não. Campeão de
cultivo no mundo, o cereal chegou aqui trazido pelos colonizadores portugueses.
Após a 2ª Guerra Mundial, recebeu forte empurrão dos norte-americanos,
interessados na sua venda. Subsidiado, penetrou no hábito alimentar do
brasileiro, deslocando gêneros tradicionais. A
presente polêmica lembra discussão havida na década de 1970,
quando da formulação do Proálcool. De forma semelhante, grupos
defendiam a produção de álcool a partir da fermentação
da mandioca, contra a cana-de-açúcar. O argumento básico
era de que o setor sucroalcooleiro estava dominado por grandes capitais, enquanto
a mandioca era popular. Não colou. Há
três anos ressurgiu estranhamente semelhante questão, durante os
estudos sobre o biodiesel. Ponderações de natureza social, híbridas
de reforma agrária com pobreza nordestina, foram utilizadas para defender
a mamona contra a soja. Esta, caracterizada como própria de grandes fazendeiros,
perdeu a parada. Deu em nada. É
verdade que a mandioca se cultiva, principalmente, entre pequenos agricultores
espalhados pelo País. Segundo os dados do IBGE, menos de 1% da raiz advém
de grandes produtores rurais. O trigo, entretanto, também se caracteriza
como cultura democrática. Apenas 4,2% do cereal pertence aos grandes cultivos. A
maior diferença não reside no tamanho, mas na qualificação.
O aipim ainda representa, até hoje, cultura de subsistência para
grande parcela dos agricultores, especialmente no Nordeste e no Norte. O grande
consumo da macaxeira se dá na forma de farinha e polvilho. Se for mansa,
basta cozinhar e comer. Já
o trigo configura cultura especializada, fortemente vinculada ao mercado e integrada
aos moinhos, onde se tritura o grão. Sua distribuição privilegia
o sul do País, especialmente os Estados do Rio Grande do Sul e Paraná,
pois exige clima frio para bem vingar. Recentemente, graças às pesquisas
da Embrapa, surgiram variedades adaptadas ao cerrado, com excelente performance. Nessa
contenda, primeiro importa a qualidade nutricional. A mistura da fécula
de mandioca na farinha de trigo pouco compromete o alimento final. Altera um pouco
o gosto, mas pode melhorar a conservação de pães e pizzas.
Há um senão: o trigo apresenta cinco vezes mais proteína
que a mandioca. Quer dizer, turbinado com fécula, o pãozinho fica
mais energético. Isso
não significa, necessariamente, piora. Pão ruim, isso sim, é
aquele fabricado com bromato de potássio, um sal insosso, cancerígeno,
que aumenta o volume da massa. É fácil perceber sua utilização.
O pãozinho fica vistoso, fofo. Na mordida, esfarela fácil. Uma porcaria. Proibido
desde 2001, com a Lei 10.273, esse artifício químico continua sendo,
fraudulentamente, utilizado na maioria das padarias pelo Brasil afora. Os sistemas
de fiscalização de saúde não conseguem, ou não
desejam, eliminar a prática nociva. Isso, sim, é assunto grave,
que macula a turma do trigo. A
proposta da adição forçosa da mandioca no trigo parece boa
idéia. Mas é antiga. Na sociedade passada, essas coisas impositivas
funcionavam. Cabia ao governo decidir pelo cidadão. Mas agora, tudo sabido,
globalizado, quem garante que dará certo? Suponha que o Congresso aprove.
Quem vai fiscalizar a emissão de notas fiscais frias? O
pecado capital dos mandioqueiros reside nisto, em defender, na marra, a mistura
pretendida. Seria mais conveniente trabalhar o marketing do produto, pois o mercado
aceita. Em 2002, a oferta de trigo esteve restrita, elevando o seu preço.
Mais barata, a fécula de mandioca acabou sendo adquirida em grandes quantidades
pela indústria. Os consumidores nem sentiram a diferença. Mais
importa o gosto do consumidor que a obrigação legal. E depende da
tendência do mercado. Veja o curioso exemplo do pão de queijo. Sem
ninguém obrigar a nada, nem mesmo perceber direito, o delicioso quitute
mineiro se expandiu pelo País afora. Com a ajuda da tecnologia, que facilitou
o processo, já se consomem, mensalmente, 6 mil toneladas de massa crua.
Mistura de queijo ralado com polvilho azedo. De mandioca! Ora,
o mesmo poderia, quem sabe, acontecer com a tapioca. Com recheio de coco é
insuperável. Mas ninguém é obrigado a gostar. *Xico
Graziano, agrônomo, foi presidente do Incra (1995) e secretário
da Agricultura de São Paulo (1996-98). E-mail: xico@xicograziano.com.br
Site: www.xicograziano.com.br |