pessoas mais sensatas do
Ministério da Agricultura. O governo já decidiu rever os índices
de produtividade que servem de critério para os processos de desapropriação
de terras. Os índices propostos são absurdos e servirão como
potente munição para quem estiver empenhado em espalhar insegurança
no campo, onde já grassa uma crise de proporções inéditas.
Os
números contidos na Portaria Interministerial divulgada pelo jornal Valor
foram calculados precisamente para favorecer o MST e organizações
semelhantes. O presidente da República sabe disso. Se não tivesse
consciência do que representam os índices propostos, não deixaria
para depois das eleições a sua publicação. Não
há outra explicação para o adiamento, além do temor
das conseqüências de mais esse ato de irresponsabilidade.
A
revisão daqueles números é duplamente desastrosa. Em primeiro
lugar, porque os novos índices vão representar um risco permanente
para os proprietários que efetivamente produzem. Os níveis de produtividade
propostos são muito próximos das médias do período
1999- 2004. O rendimento mínimo proposto para a cana-de-açúcar
em São Paulo, Paraná e Alagoas corresponde a 75, 70 e 60 toneladas
por hectare, respectivamente. Naqueles anos, as médias foram de 75,6 toneladas
para os dois primeiros Estados e de 59,5 para o terceiro.
O
mesmo ocorre nos casos da soja, do milho e do algodão. Vejamos o caso da
soja, por exemplo. Os produtores de Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do
Sul e Goiás colheram em média, naqueles anos, 2.767, 2.613, 1.813
e 2.456 quilos por hectare. Os índices propostos são 2.500, 2.500,
1.700 e 2.400, praticamente sem margem de diferença.
Quem
terá disposição para investir numa atividade arriscada como
a lavoura, se tiver de trabalhar com os bandos do MST e seus amigos do Incra à
espreita, o tempo todo, para aproveitar qualquer mínima redução
de produtividade que possa ocorrer? Só uma pessoa absolutamente ingênua
pode imaginar que os novos índices tenham sido propostos de boa-fé,
como critérios para redistribuição de terras improdutivas
em nome do interesse social.
Se
é preciso ser ingênuo para acreditar nisso, é indispensável
ser desprovido de qualquer sinal de bom senso para admitir que a transferência
da propriedade, nesses casos, possa resultar em aumento de eficiência na
agricultura. Talvez alguns conselheiros do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, notoriamente desprovidos de luzes, possam admitir essa hipótese.
Mas será que o presidente acredita nessa barbaridade? Imaginar que ele
possa cair num conto-do-vigário tão rudimentar é assustador.
No entanto, ele já cometeu equívocos de calibre semelhante, especialmente
na política externa, até agora um rosário de fracassos. Mas
a hipótese contrária é igualmente preocupante: se não
acredita, por que se dispõe a sustentar politicamente essa aventura?
Isto
remete ao segundo ponto: a própria idéia da reforma agrária,
tal como sustentada pelo governo brasileiro, é um enorme equívoco.
A agricultura é uma atividade profissional extremamente sofisticada. Exige
competência, esforço, disposição para o risco e capacidade
para absorver e aplicar inovações - além de recursos financeiros.
É um negócio competitivo e não se pode mantê-lo distante
dos padrões internacionais, a menos que se queira fazer da terra um instrumento
de assistencialismo e clientelismo, do tipo bolsa-família.
Se
isso ocorrer, toda a economia brasileira será prejudicada. Não serão
atingidos, como pensam os menos informados, somente os atuais proprietários.
Se insistir nessa irresponsabilidade, o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva porá em risco um dos principais trunfos comerciais do Brasil, tornará
a economia mais vulnerável a choques externos e, de quebra, comprometerá
a estabilidade de preços de alimentos, que é favorecida não
por incompetentes e amadores, mas por produtores eficientes, sejam grandes ou
pequenos proprietários.