| entremeado
de caroços, pois não teve o cuidado de lixar bem a superfície
onde pintou. O maior
foi o de que o "o momento é o mais positivo na história econômica
do Brasil". Ora, por várias décadas no século passado
o Brasil foi um campeão de crescimento, e houve períodos em que
o nosso produto interno bruto (PIB) chegou a crescer perto de 10% ao ano, como
a China de hoje. Como Lula não conseguiu mexer com os pauzinhos do crescimento,
permanecemos travados em torno de 3,5% ao ano, na rabeira dos chamados países
emergentes. Lula
soltou essa avaliando que o Brasil pode crescer 6% ao ano, mas, segundo a matéria,
se trata de estimativa que o Ministério da Fazenda prevê ser alcançada
só em... 2010! E olhe lá, pois, se continuarmos na toada atual,
nem isso. Em particular, é assustador esse diagnóstico lulista do
ponto em que estamos, e de sua atitude na entrevista, ao desprezar ou deixar de
lado problemas que, sem solução ou alívio, farão o
crescimento econômico nacional continuar medíocre. Não que
essa mediocridade tenha surgido no seu governo, pois ela já caminha para
sua terceira década. Mas, certamente, não chegaremos a lugar algum
se sucessivos governos, como o atual - que nos ameaça com sua reeleição
-, pouco ou nada fizerem para recuperar os caminhos de um crescimento realmente
satisfatório. No
diagnóstico, além do tal "momento positivo", Lula vê
o Brasil em "total estabilidade econômica". Sem querer, pois em
contradição com o que afirmou sobre o momento, aí tangenciou
a realidade, pois estabilidade não é sintoma de saúde. Muitos
doentes, desnutridos e acidentados ficam estavelmente em más condições
por muito tempo. Este é o diagnóstico da realidade econômica
nacional, o de um paciente crônico e carente de cuidados para os seus males.
Quanto aos inócuos cuidados que efetivamente recebe de seu principal governante,
o que se pode dizer é: haja paciência! Ainda mais com esse trombetear
em que o insucesso e a inação são alardeados como maravilhas. Vários
foram os problemas cuja gravidade o entrevistado minimizou. Assim, a dívida
pública, que já alcança R$1 trilhão, é vista
como "tranqüila". Só se for para um mau devedor. Que tranqüilidade
é essa de uma dívida desse tamanho num país onde a taxa básica
de juros é de 14,75% ao ano, a qual leva o Brasil à posição
de campeão mundial de juros, em que vence disputa avaliada pelo mérito
às avessas? Para
o presidente, a reforma tributária já foi feita, tampouco é
preciso fazer a da Previdência, e a meta do superávit fiscal será
mantida, pois seu governo promoveu "uma grande revolução macroeconômica",
colocada como um dos eixos de sua campanha eleitoral. Ora, sua política
macroeconômica não foi nem revolução, nem evolução,
nem solução. Na realidade, manteve a asfixiante expansão
da carga tributária e gastou mal o que mais arrecadou, ao expandir fortemente
as despesas de custeio e sacrificar investimentos que efetivamente poderiam contribuir
para um maior crescimento econômico. E
mais: seu superávit primário não representa, como alardeia
o governo, esforço e austeridade na área fiscal. Quem se esforça
mesmo é o contribuinte, que arca com uma carga tributária cada vez
maior e ainda vê o governo federal a torrar irresponsavelmente o dinheiro
que arrecada. Paradoxalmente,
o governo federal atual insiste em fazer comparações com o anterior,
de Fernando Henrique Cardoso, numa atitude que cabe no ditado "nada como
o governo como a oposição no governo". O que Lula de fato fez
com sua "revolução macroeconômica" foi dar continuidade
à política de FHC nessa área, em particular aos seus piores
traços, como a expansão da carga tributária, os juros elevados
e o câmbio valorizado. No
quadro róseo que borrou, mais uma de enrubescer quem percebesse a própria
falseta: ao realçar uma declarada tranqüilidade econômica, disse
que, quando os EUA espirravam, "nós" pegávamos pneumonia,
tamanha a dependência econômica daquele país. "Hoje, (eles)
espirram e nós falamos: Saúde." Ora,
ainda recentemente, mais precisamente em maio, na esteira de simples coceira no
nariz por parte de Ben Bernanke, presidente do banco central americano, quando
numa entrevista deu a entender que os juros no seu país poderiam crescer
ainda mais, veio uma crise de volatilidade nos mercados financeiros mundiais.
Aqui a Bolsa caiu e o dólar subiu. Investidores estrangeiros em "tranqüilos"
títulos da dívida brasileira ficaram receosos de continuar com eles,
pressionaram e o Tesouro Nacional realizou às pressas um leilão
de recompra de papéis, para "fortalecer" o mercado desses títulos.
Queira ou não o nosso presidente, é bom atentar para o que se passa
na maior e mais influente economia de um mundo globalizado. Só
faltou, no espelho onde se mirou e auto-elogiou, parafrasear trecho de música
da banda Biquíni Cavadão: "Quando os astronautas foram à
Lua/ Que coincidência, eu também estava lá." Alheio,
seriamente ou não, a muito do que efetivamente se passa ao seu redor, ela
é o seu mundo. Roberto
Macedo, economista (USP), com doutorado pela Universidade Harvard (EUA), pesquisador
da Fipe-USP e professor associado à Faap, foi secretário de Política
Econômica do Ministério da Fazenda |