depoimento gravado em audiovisual,
aos participantes do Congresso Brasileiro do Agronegócio, realizado em
São Paulo. O programa previa a exibição de vídeos
com depoimentos dos principais concorrentes à Presidência da República.
Eles deveriam apresentar comentários sobre assuntos selecionados de interesse
do setor.
"Se
este fórum fosse do MST, teria patrocínio do governo federal e o
presidente teria vindo gravar", disse o presidente da Sociedade Rural Brasileira,
João Sampaio Filho. "A não manifestação já
é uma posição. O presidente colocou deste modo a sua posição
e a sua estratégia", comentou o presidente da Organização
das Cooperativas Brasileiras, Márcio Freitas.
O
presidente-candidato recusou-se a participar, alegando discordar do formato proposto
para o depoimento. Os candidatos deveriam tratar de temas indicados pelos organizadores,
como reforma dos impostos, parcerias público-privadas, proteção
contra invasões de terras e política ambiental. Essa organização
dos depoimentos permitiria confrontar as opiniões e propostas dos vários
pretendentes à Presidência. Três candidatos apresentaram suas
idéias aos participantes do congresso: Geraldo Alckmin (PSDB), Heloísa
Helena (PSOL) e Cristovam Buarque (PDT).
As
declarações que mais agradaram foram as do tucano, que enumerou,
entre outros pontos de seu programa, prioridade à reforma tributária,
reforço e ampliação do sistema de seguro agrícola
e intolerância a invasões de terra. Heloísa Helena prometeu
realizar a reforma agrária - com reforma não há invasões,
acrescentou - e incentivos a quem cumprir metas de produtividade. Cristovam Buarque
foi quem menos se estendeu sobre questões específicas do agronegócio,
concentrando-se em propostas para a educação.
É
apenas normal que os profissionais do agronegócio, como outros grupos de
pessoas com interesses comuns, queiram conhecer as idéias dos candidatos
sobre seus problemas e suas aspirações. Este grupo, em particular,
tem uma pauta de problemas de evidente interesse público.
Para
bem ou para mal, fatos que afetam a agricultura, a pecuária e toda a cadeia
de negócios ligada a essas atividades têm repercussões sobre
toda a sociedade. Isso é verdade mesmo quando a agropecuária, como
ocorre no mundo rico, tem um peso pequeno na formação do PIB. É
muito inquietante, portanto, que o candidato Luiz Inácio Lula da Silva
se esquive de tomar posição diante das preocupações
do empresariado do agronegócio.
Ao
assumir o governo, o presidente Lula demonstrou, em algumas declarações
desastradas, sua ignorância a respeito da agricultura brasileira. Mais tarde,
deu a impressão de haver acumulado alguma informação sobre
o assunto. Mas, mal ou bem informado, ele nunca se livrou das ligações
com os adversários da agropecuária moderna, que já existiam
antes de chegar ao governo.
Nos
últimos anos, essa agropecuária continuou a contribuir para o fortalecimento
da economia nacional, enquanto suas perspectivas de maior desenvolvimento eram
comprometidas por uma política orientada por interesses partidários
e ideológicos.
Durante
dois anos a pesquisa agropecuária foi posta em xeque pelo aparelhamento
partidário da Embrapa. Suas condições de produção
foram postas em risco pelo enfraquecimento do controle sanitário. Suas
possibilidades de modernização foram ameaçadas, além
disso, pela imposição de entraves ideológicos ao funcionamento
da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, convertida
num tribunal de censura à ciência. A recusa do presidente de falar
aos participantes do Congresso Nacional do Agronegócio parece não
ser, afinal, mais que um desdobramento dessas políticas e atitudes.