Cuba era dominada pelos
norte-americanos.
Fora os cassinos, a economia açucareira se impunha na ilha, por meio de
22 grandes companhias. O cultivo de cana se aproximava de 2 milhões de
hectares. Na área total explorada, metade vinha das pastagens naturais.
Fidel
Castro, de cara, confiscou a terra das empresas canavieiras. Mas não parou
por aí, cortando mais embaixo. Ninguém poderia deter acima de 30
"caballerias", aproximadamente 402 hectares de terra. A ordem era socializar
os meios de produção, formando cooperativas com administração
centralizada pelo Estado. Na marra.
Houve
dois momentos no processo de reforma agrária. De início foram preservados
os pequenos agricultores, com até 47 hectares. Em 1963, porém, uma
segunda lei, mais radical, incorporou ao patrimônio do Estado 1,8 milhão
de hectares retirados das pequenas explorações. O setor estatal
passou a deter 60% das terras cubanas. O restante estava dividido entre 150 mil
agricultores, dos quais se exigia submissão política e comercial.
Tempos duros.
Nessa
época, em resposta à revolução cubana, os Estados
Unidos formularam a Aliança para o Progresso. Entre as ações
estratégicas, propugnava a reforma agrária na América Latina,
para modernizar a estrutura fundiária, profundamente injusta. Melhor entregar
os anéis que os dedos!
O
Peru e a Venezuela logo promoveram distribuição de terras. No Brasil,
o golpe militar atrasou a reforma. Mesmo assim, inspirado na Aliança, Castelo
Branco fez aprovar, em novembro de 1964, o Estatuto da Terra. A idéia central
era criar uma classe média, empresarial, no campo. Combatendo a oligarquia
e modernizando a agricultura se enfrentava a ameaça comunista.
Alinhada
à antiga União Soviética, Cuba seguia o planejamento centralizado
na agropecuária. As "granjas do Estado" recebiam ordens de produção,
com metas a serem atingidas, visando a atender ao cativo mercado comunista. Qual
terá sido o resultado da socialização da agricultura cubana?
A
avaliação é imprecisa, visto o controle de informações.
Enquanto perdurou o regime soviético, trocava-se açúcar caro
por alimentos baratos. Controlado artificialmente, o sistema econômico garantia
a estabilidade cubana. Mantinha-se acesa a guerra fria.
Os
agricultores não endossaram facilmente o socialismo no campo. Mas Fidel
Castro, felizmente, não cometeu o erro do genocídio agrário
stalinista, que coletivizou a agricultura russa na ponta da baioneta, causando
a morte de milhões de camponeses. Em Cuba, além do açúcar,
as granjas do Estado dominaram o ramo de gado, aves e suínos, arroz e leite.
O tabaco também foi estatizado.
Quando
chegou a hora da verdade, sem os subsídios soviéticos, a enorme
debilidade da economia socialista cubana acabou exposta. Em cinco anos, as exportações
caíram de US$ 5,3 bilhões para US$ 1,5 bilhão, provocando
forte queda do produto interno bruto (PIB). A produção de açúcar,
prevista em 9,5 milhões de toneladas para 1990, alcançou 8 milhões
e, nos anos seguintes foi baixando até atingir 3,3 milhões de toneladas
em 1995. Recorde negativo.
Com
a crise, a ilha entrou numa transição agrícola forçada.
Sem a receita subsidiada de exportações, não havia como financiar
as granjas estatais. Dependente em 90% de importações de fertilizantes
e agrotóxicos, restou partir para uma agricultura alternativa. A ordem
era economizar insumos químicos. Segundo a Oxfam, Cuba se converteu em
laboratório mundial da agricultura orgânica.
A
coletivização deu marcha à ré. Antes de 1994, o Estado
era o único comprador e distribuidor da produção agrícola.
Depois, os mercados foram abertos e as granjas estatais, divididas. Criaram-se
cooperativas mistas, em que a terra é do governo e a gestão, dos
produtores privados. Um misto de capitalismo.
Atualmente,
os chamados "jardins urbanos", uma espécie de cinturão
verde da capital, produzem metade do arroz e dos hortifrutícolas consumidos
no país. Em contrapartida, despencaram a produção de açúcar,
a atividade leiteira e a postura de ovos. Apenas os charutos mantiveram, até
elevaram, o nível de produção.
Cuba
ostenta, hoje, a nona posição na produção mundial
de açúcar, com apenas 3,9 milhões de toneladas. A extrema
valorização do produto no mercado global, entretanto, está
animando a todos. Resta saber como tornar mais eficiente a produção
cubana, cujos custos pairam no dobro de seus concorrentes, entre eles o México.
Para não falar no Brasil.
Poderá
Cuba destilar cana para fabricar álcool combustível, aproveitando-se
da proximidade do fabuloso mercado norte-americano. Seria boa alternativa, porém
modesta, estimada na ordem de 500 milhões de litros/ano. Os gigantes rivais
do norte já destilam 16 bilhões de litros/ano, elaborados a partir
do milho.
A insegurança
ronda Cuba. A perda do comandante poderá abrir as porteiras das expectativas,
sem condições objetivas de atendimento. Haverá frustração
popular. Precisará de ajuda. Chávez, caudilho da Venezuela, qual
abutre, já ofereceu seus petrodólares para comprar usinas de açúcar
falidas.
Pobre
Cuba. Era só o que faltava. Livra-se dos longos e chatos discursos de Fidel
Castro, mas se arrisca a cair nas garras atrasadas da reencarnação
de Bolívar. É muita falta de sorte.
*Xico
Graziano, agrônomo, foi presidente do Incra (1995) e secretário da
Agricultura de São Paulo (1996-98).
E-mail: xico@xicograziano.com.br.
Site: www.xicograziano.com.br