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a modernização do capitalismo brasileiro. O programa, neste sentido,
tem um nítido contorno eleitoral, feito para ganhar votos tanto à
esquerda quanto à direita. A sua mensagem é: fica para depois da
conquista do poder a discussão sobre a realização ou não
das reformas de Estado. Não
deixa de despertar desconfiança a elaboração desse programa
de governo, porque, num certo sentido, ele é muito mais genérico
e menos radical que os documentos que o embasaram nas várias comissões
do PT. A consideração eleitoral foi aqui certamente central, pois
o radicalismo político não é, em geral, bem aceito pelos
brasileiros. Ocorre, contudo, que a Comissão de Programa de Governo foi
composta de radicais, que, em seus artigos no site do PT, advogam por transformações
profundas da sociedade brasileira, rumo ao socialismo. Logo, a questão
que se coloca é: por que um grupo de radicais, que advogam por um socialismo
autoritário, elabora um programa de governo que evita, escrupulosamente,
qualquer radicalismo? Teriam eles mudado? Converteram-se ao "neoliberalismo"? Eles
certamente fazem a distinção entre a conquista do poder e a transformação
radical da sociedade, que exige condições objetivas para sua realização.
Neste primeiro momento eleitoral, seu objetivo central consiste na conquista do
poder, o que pressupõe evacuar a proposta de governo de qualquer forma
de radicalismo. Eles têm, ademais, plena consciência de que o Brasil
não apresenta "condições objetivas" para a realização
de uma proposta socialista, tal como eles a vislumbram. Mais vale, portanto, calar
pelo momento, aguardando que tais propostas possam surgir ou ser provocadas no
futuro. A generalidade do programa é de tal monta que deixa qualquer possibilidade
aberta, inclusive essa de transformação da sociedade. Na verdade,
eles estão transferindo esse problema para depois das eleições,
dependendo da correlação interna de forças no partido e no
próximo governo. O
programa mais se caracteriza por seus silêncios e omissões do que
por aquilo que explicitamente propõe. As grandes reformas do Estado foram
abandonadas e substituídas por referências indiretas, que nada implicam
de compromissos específicos. Fala-se da Previdência em geral, sem
nenhum compromisso com a reforma previdenciária. Fala-se de impostos, sem
nenhum compromisso com a reforma fiscal. Fala-se de problemas trabalhistas, sem
nenhuma referência a uma moderna reforma dessa legislação.
A exceção reside na reforma política, por esta ter, na visão
desses estrategistas, maior apelo na situação atual, por desviar
a atenção da corrupção empreendida pelo atual governo
e por seu partido. Tudo é, assim, debitado na conta dos problemas estruturais
da sociedade brasileira. Uma
nota introdutória é comum a esse programa e ao de 2002, a de caracterizar
o governo FHC como responsável por todos os males da realidade brasileira:
uma "catástrofe". Recupera-se a formulação da "herança
maldita", que funcionaria, no nível do discurso, como uma forma de
congregar os eleitores e a militância do PT em torno de uma crítica
genérica ao capitalismo. Criam-se, de nova conta, as condições
de uma esquizofrenia entre o discurso e o que o governo Lula de fato fez ao seguir
a política macroeconômica do governo anterior, dita, paradoxalmente,
"neoliberal". O PT continua se recusando a qualquer revisão doutrinária
de suas idéias. O caldo de cultura partidário continua "radical"
e o governista, "pragmático", avesso aos radicalismos políticos.
Digno de menção é o fato de que nessas mesmas páginas
introdutórias o documento reitera seus "compromissos" com os
"movimentos sociais", em cuja rubrica estão incluídos
MST, MLST e CPT. Chama
igualmente a atenção no texto a ausência de um comprometimento
com uma redução geral da carga tributária, o que se poderia
traduzir por uma ampliação do empreendedorismo e por maiores iniciativas
empresariais, que satisfariam, indistintamente, todos os setores da economia.
Na contramão de tal tendência, o documento contempla o atendimento
de pleitos setoriais, que viabilizaria a própria posição
do governo e do Estado, que conservaria a sua posição de distribuidor
geral de favorecimentos. Desta maneira, o Estado brasileiro manteria a sua atual
estrutura corporativa. No estado atual deste programa, está ausente uma
modernização dessas relações, com uma maior autonomia
concedida à sociedade em seu conjunto. Particular
atenção deve ser dada ao uso da palavra democratização,
pois no linguajar petista ela significa uma radicalização das propostas
socialistas autoritárias, via conselhos populares e democracia dita participativa.
Trata-se de uma reafirmação da experiência dos sovietes com
outro nome, um nome que não assuste e possa ser acolhido pela opinião
pública brasileira. Mais especificamente, significa um aparelhamento das
funções do Estado pelo partido, que se organizaria de uma forma
aparentemente "popular", como já ocorre e ocorreu em alguns Estados
e cidades que fizeram e fazem a experiência do dito orçamento participativo.
O seu alvo, a longo prazo, é o controle, se não a destruição,
da democracia representativa. Assim, o documento defende a "participação"
na formulação do "orçamento" e o controle das políticas
públicas "por meio de conselhos e comitês representativos".
Ainda num claro viés autoritário, o programa trata genericamente
da "democratização dos meios de comunicação",
deixando a porta aberta, segundo consta de um dos documentos preliminares, para
um maior controle dos meios de comunicação em geral, inclusive com
políticas conselhistas de renovação das concessões
públicas de rádio e de televisão.
*Denis
Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRGS. E-mail:denisrosenfield@terra.com.br
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