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metas quantitativas de limitação de emissões apenas para
os países desenvolvidos e países europeus ex-comunistas. Esses países
podem atingir suas metas individualmente ou em conjunto, por meio de "mecanismos
de flexibilização", como o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo
(MDL), derivado de proposta brasileira. Os países em desenvolvimento não
têm metas a cumprir pelo protocolo, mas projetos realizados em seus territórios,
uma vez aprovados pelo Conselho Executivo do MDL, podem ser usados por países
desenvolvidos para obter créditos que os ajudem a cumprir as metas que
assumiram no protocolo. Apesar
de o terem assinado em 1998 (governo Clinton), os EUA anunciaram em 2001 que não
ratificarão o protocolo, alegando que o instrumento seria injusto e ineficaz
por não estabelecer metas para os grandes países em desenvolvimento.
Não obstante, criou-se na Bolsa de Chicago um mercado voluntário
para as empresas que se interessarem em comercializar créditos de carbono,
além de algumas iniciativas estaduais, destacando-se a da Califórnia
e de outros Estados do nordeste americano. Uma lei federal prevendo um sistema
semelhante ao de Kyoto está em tramitação no Congresso americano,
ao passo que a Suprema Corte dos EUA aceitou julgar se o governo de Washington
deve ou não regular as emissões de dióxido de carbono como
forma de combater o aquecimento global. A decisão judicial determinará
se a opção do governo de contar só com iniciativas voluntárias
para evitar as mudanças climáticas é legal sob as leis federais
voltadas para a qualidade do ar nos EUA. Com
a oferta de projetos em países em desenvolvimento e a demanda de créditos
por empresas dos países desenvolvidos, formou-se um mercado para a compra
e venda desses créditos. Inicialmente na Europa - em Paris, em Londres
e na Noruega. Cerca de US$ 12 bilhões de créditos foram transacionados
no ano passado. Em 2006 esse número deverá triplicar. Na
Europa, o mercado para transações de licenças de dióxido
de carbono entrou em vigor em 1º/1/2005, com o estabelecimento do esquema
europeu de comércio de emissões, o European Union Emission Trading
Scheme (ETS). O ETS objetiva limitar, conforme as metas de Kyoto, as emissões
de CO2 de fontes definidas (geradoras de energia elétrica, siderúrgicas,
refinarias, fábricas de cimento, etc.). Quando
o esquema foi criado, a expectativa era de que o preço desses créditos
se estabilizasse ao redor de 10 por tonelada, mas em vez disso subiu para até
30. O consumo de carvão para as centrais elétricas foi responsável
por esse aumento. Em
abril, a União Européia divulgou as quantidades de emissões
medidas e certificadas em 2005, o primeiro ano do sistema. Foi a primeira vez
que se realizou este tipo de contagem, pois até então se trabalhava
apenas com previsões. Revelou-se que vários países, incluindo
a França e a Espanha, emitiram menos que o previsto. De pronto o mercado
reagiu negativamente: haveria excesso na oferta de créditos. As cotações
despencaram, passando de 27 para perto de 10 em poucos dias. Hoje,
porém, as cotações já se recuperaram em boa parte
e se situam ao redor de 20. Foi um episódio de volatilidade superado pela
percepção mais aprofundada de que, no futuro, este desequilíbrio
seria naturalmente absorvido. Os números, contudo, podem ter refletido
não o êxito do esquema para cortar as emissões, mas o sucesso
da indústria européia no lobby para o recebimento inicial de um
maior e mais confortável volume de créditos. Desta forma, alguns
países podem ter inflado sua previsões iniciais como um artifício
para garantir uma performance positiva, apenas na aparência. Além
deste comportamento volátil no curto prazo, há outras incertezas
no longo prazo, principalmente com relação ao que ocorrerá
após o encerramento do primeiro período de Kyoto, em 2012. As regras
para 2013 em diante ainda estão em discussão. O
mercado de carbono experimentou uma turbulência temporária, mas passou
no teste e deve fortalecer-se daqui para a frente, porque estará baseado
em dados físicos e certificados. A volatilidade recente está contribuindo
para o aprendizado e a maturação e deverá reduzir-se gradualmente.
A longo prazo é improvável que um esquema de redução
de emissões funcione adequadamente com um preço abaixo de certo
limite. Pode-se esperar que os países membros do ETS e do Protocolo de
Kyoto se mobilizem para sustentar preços em determinado nível. É
importante o acompanhamento dessas movimentações no mercado internacional
de emissões, porque o Brasil já participa como um dos mais importantes
ofertantes de projetos de MDL, ao lado da Índia e, sobretudo, da China
(com projetos avaliados em mais de US$ 6 bilhões), e porque a Bolsa de
Mercadorias & Futuros (BM&F) deverá tornar-se um ator importante
nesse mercado. A
BM&F já lançou o Banco de Projetos e deverá inaugurar
ainda este ano o sistema de negociação de créditos de carbono
de MDL. Por este sistema, a BM&F organizará leilões eletrônicos
que poderão ser acessados via internet pelos participantes do mercado de
carbono internacional. Será o primeiro ambiente organizado e regulado na
América Latina voltado à negociação de créditos
de MDL. A implementação de um centro de liquidez transparente deverá
contribuir para o maior desenvolvimento do mercado de MDL no Brasil e no mundo,
uma vez que favorece o fechamento de negócios justos, seguros e que envolvam
baixos custos transacionais. Rubens
Barbosa, consultor, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior
da Fiesp, foi embaixador do Brasil nos EUA e na Grã-Bretanha |