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Problemas ambientais e como
enfrentá-los não têm ocupado um lugar muito expressivo na
atual campanha presidencial. A explicação que se dá para
este fato é que existem problemas mais imediatos a discutir, como segurança,
saúde, educação, saneamento básico e, acima de tudo,
corrupção, ao passo que problemas ambientais como a qualidade do
ar, da água e o desmatamento parecem mais distantes e interessam apenas
a uma parte mais esclarecida da população. Existem,
de fato, países onde a legislação ambiental é praticamente
inexistente, como a Índia e a China, e a necessidade de crescimento |
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| econômico
rápido relegou a segundo plano a proteção do meio ambiente.
Mas esta percepção está mudando na China, que está,
agora, pagando um elevadíssimo preço para corrigir os danos ambientais
causados nos últimos 50 anos. A
situação no Brasil é, contudo, diferente, porque um dos legados
positivos que o regime militar nos deixou foi uma legislação ambiental
moderna e atualizada. Graças a ela, e a governos progressistas como o do
governador Franco Montoro, Cubatão foi saneada e as chaminés que
cobriam de fumaça vários bairros de São Paulo desapareceram.
Embora existente, a legislação federal não é aplicada
com muito rigor em alguns Estados. Além disso, a eficiência do órgão
federal de fiscalização, o Ibama, deixa muito a desejar. Este não
é o caso de São Paulo, onde a legislação federal foi
complementada por uma legislação estadual e os órgãos
licenciadores e fiscalizadores são razoavelmente equipados. O
licenciamento das atividades produtivas contempla desde a construção
de uma fábrica, plantações de cana, destilarias de álcool,
aterros sanitários até a abertura de estradas. Tais atividades são
analisadas pela Cetesb e pela Secretaria do Meio Ambiente, o que tem garantido
uma qualidade ambiental melhor para o Estado. Há
queixas sobre a morosidade deste processo, mas um enorme esforço foi feito
no atual governo para simplificar o licenciamento e reduzir os prazos de análise,
o que muitas vezes não é reconhecido por empreendedores que, provavelmente,
prefeririam não se submeter a licenciamento algum. Dentre outros, um dos
fatores que ainda podem ser melhorados é a redução dos prazos
legais para convocação de audiências públicas, que,
embora contribuam para a transparência do processo de licenciamento, o tornam
demorado. Existe
um conflito claro entre interesses específicos e comerciais e os interesses
maiores da população, que são difusos. É função
do Estado atuar para garanti-los e o Ministério Público vigia esta
atuação. Tal vigilância, contudo, tem sido freqüentemente
exagerada por grupos interessados que, por meio de liminares, promovem a 'judicialização'
do processo de licenciamento, contra a qual os órgãos licenciadores
pouco podem fazer. Só para dar um exemplo, a limpeza do canal do Rio Pinheiros
utilizando o processo de flotação até hoje não saiu
do papel em razão de liminares concedidas pela Justiça. Outro
exemplo deste conflito é o que ocorre com a permissão para o corte
manual de cana na região canavieira do Estado. A queima prévia da
cana-de-açúcar é condição necessária
para que seja realizado o corte manual, porém esta prática é
uma importante fonte de poluição no interior paulista e causa de
problemas de saúde e inconvenientes para a população. A rigor,
o corte da cana deveria ser mecanizado e a Assembléia Legislativa aprovou
uma lei para introduzir gradativamente este procedimento no Estado. O cronograma,
contudo, não é muito rápido e só em 2012 se tornará
mais eficaz. Até então cabe à Secretaria do Meio Ambiente
autorizar a queima quando as condições atmosféricas assim
permitirem, o que tem sido feito, apesar da insurgência de alguns usineiros. A
exigência do Código Florestal de manter uma reserva legal de 20%
nas propriedades agrícolas é mais um ponto polêmico. Alguns
argumentam que este índice é arbitrário, não tem base
científica, e adotá-lo prejudica seriamente as atividades produtivas.
Há outros, porém, que argumentam que 20% é pouco e que a
preservação ambiental só seria obtida com uma reserva legal
mais ampla, como é na Amazônia Legal, cujo índice é
muito maior e onde, apesar disso, o desmatamento continua, sobretudo em alguns
Estados. Este
desmatamento em grande escala vai acabar por produzir mudanças do clima
no Sudeste e no Nordeste, que se tornará ainda mais seco. Finalmente,
existe o exemplo do licenciamento do Rodoanel, que hoje todos os candidatos ao
governo estadual reconhecem não só como necessário, mas urgente.
Este empreendimento foi licenciado pela Secretaria do Meio Ambiente após
três anos de trabalhos, mas só depois de removidos inúmeros
obstáculos criados por alguns grupos - os quais levaram a ações
do Ministério Público Federal - e de vencer uma colaboração
problemática do Ibama, além da ausência do governo federal
no financiamento da obra. No
plano federal, são notórias as dificuldades que o Ministério
de Minas e Energia encontra em licenciar no Ibama usinas hidrelétricas
na Amazônia e muitas obras da Petrobrás. O governo federal fez muito
pouco para resolver estes problemas, que dependem menos de mudança da legislação
ambiental do que de melhora no desempenho dos órgãos ambientais
federais. É
por estas razões que os temas ambientais deveriam ser mais discutidos na
campanha eleitoral. O abrandamento das exigências ambientais proposto por
alguns setores seria um sério retrocesso. O que pode ser feito é
aperfeiçoar a legislação existente, mas sem perder de vista
que o problema urgente é melhorar a eficiência dos órgãos
licenciadores, o que foi feito em São Paulo. *José
Goldemberg é secretário do Meio Ambiente do Estado de São
Paulo |