| resina.
Não se vê o pinheiro cair nas cenas filmadas pelo fotógrafo
Haroldo Palo Júnior. Mas na locução parece ao vivo e em cores:
'toc, toc, toc', 'vai cair, vai cair'. Narrá-las foi um dos últimos
trabalhos de Gianfrancesco Guarnieri, que morreu em julho. Agora
sai A Grande Derrubada, como serviço póstumo à SPVS, ONG
paranaense que, pela mão do publicitário Eloi Zanetti, procura com
o documentário quem adote os últimos pinheirais do Estado, pagando
para mantê-los em pé. Num país onde as campanhas políticas
parecem mais mortas do que nunca, a voz de Guarnieri prova que, se elas acabaram,
não foi por falta de causas ou de assunto. Pena que, para isso, não
haja lugar nem partido nos horários de propaganda gratuita. Sobram,
no Paraná, 0,8% das suas matas nativas de Araucaria augustifolia. E, mesmo
reduzidas a esse ponto terminal, continuam caindo essas árvores que surgiram
na terra há 300 milhões de anos. Em meados do século 16,
quando o explorador espanhol Alvar Nuñes subiu o Prata, eram tão
grandes 'que vários homens com os braços estendidos' não
conseguiam abraçar. Por que caem? A
resposta pode ser quase inocente, como a do agricultor Felipe Paulo Rickli, soprada
no documentário pelos vãos de caninos de ouro emergindo da barba
branca: 'Papai mandou nós ir ver o terreno e nós voltemos aborrecidos,
porque o terreno do homem não presta. É só pinheiro'. É
o mesmo Rickli que aparece depois, confessando que do arroio mais próximo
seu irmão tirou 'um capãozinho de pinheiro'. Depois, 'o genro dele
destocou o terreno e fez roça'. No fim, 'não sobrou nem a metade
do arroio que era'. Visto assim, Rickli nem chega a ser o culpado do estrago.
É vítima dos costumes perdulários que o brasileiro herdou
de seus colonizadores. O
legendário botânico Gerdt Hatschbach, que aos 80 e tantos anos ainda
faz pesquisas de campo e conheceu o Paraná com florestas de araucária
aparentemente sem fim, viajando um dia sob a cortina de fumaça que cobria
o caminho, encontrou 60 quilômetros de pinheirais queimando, 'porque o dono
não queria vender a madeira para as serrarias'. 'Tinha
muito, muito, muito', lembra o agricultor Leonardo Czeleiski. Mas seu pai 'era
dono de uma serraria que começou a serrar em 1923 e em 1928 ele parou,
porque não deu mais para tocar'. A fonte de madeira havia secado em apenas
meia década. Em seu lugar restou 'só devastação, ninguém
ficou melhor de vida porque vendeu pinheiro'. O
problema é que, depois das serrarias, quase sempre vêm os campos
de soja, que devastam mais ainda. 'Todos vinham para cá para ficar ricos
depressa e voltar', lamenta o engenheiro florestal Miguel Milano. Ele cresceu
no planalto paranaense dos anos 50, tomando banho em rio limpo e catando jabuticaba,
pitanga, araticum, uvaia e pinhão na mata que confinava com os fundos de
Palmital, então um arruado de casas de madeira. Milano viu fazendeiros
e sitiantes venderem as araucárias de Palmital à indústria
de papel, milhares de cada vez. Naquela época, os meninos brincavam com
caminhões de madeira carregados de troncos, imitando o que faziam seus
pais. O desmatamento serviu ao menos para empurrar Milano para o ambientalismo. A
Grande Derrubada chegou para dizer que não adianta mais esperar pela solução
caída do céu, em forma de providências do governo. Não
dá tempo para esperar que a sociedade mude e, mudando, conserte os políticos.
'Está na hora de tomar uma decisão final', resume o veterinário
Clóvis Borges, que puxa a campanha para a adoção das últimas
matas com araucárias do Paraná. Ele tem a única proposta
para o meio ambiente que o brasileiro poderia ouvir neste triste ano eleitoral.
*Jornalista
e editor do site O
Eco (www.oeco.com.br) |