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valor da ecologia. Na escola, crianças plantam árvores. Nada mais
adequado. Sobra
lição para o produtor rural. Acabou a época do desmatamento.
Chegou o momento de investir fortemente na conservação florestal.
No passado, derrubar mato era sinônimo de progresso. Hoje, preservar a biodiversidade
vislumbra futuro. Desde
os índios, o fogo abria clareira para plantar. Depois, chegou o machado
afiado, abrindo alas para a barulhenta motosserra. Durante quatro séculos,
certo estava trocar mata virgem por terra arada. Nos anos 1950, em São
Paulo, a Secretaria da Agricultura recomendava aos colonos, na fronteira do oeste,
a iniciarem sua ocupação limpando as margens dos rios, para afastar
o mosquito da malária. Ali morava o perigo. A
História cultiva suas ironias. Hoje, o agricultor está sendo incriminado
por aproveitar a beirada dágua. O acerto do passado é o erro
do presente. Novos valores se impõem. Gerações de agricultores
acostumados a derrubar floresta aprendem a respeitar ecologia. A
mudança, antes de tudo, é cultural, uma transição
que exige apoio da sociedade. Na história do ambientalismo brasileiro,
os produtores rurais têm sido tratados como inimigos. Não parece
boa estratégia. Mais eficaz será construir uma aliança a
favor da pedagogia florestal. Ensinar é melhor que reprimir. O
melhor exemplo da necessidade desse entendimento reside na atual discussão
sobre o Código Florestal. Na época de sua aprovação,
em 1965, se estabeleceu que as propriedades rurais devessem manter, em 20% de
sua área, um pedaço de mata nativa. Ninguém sabe ao certo
de onde saiu esse número. Mas virou lei. Na
Região Amazônica, fixou-se a maior essa reserva legal, em 50% da
propriedade. Depois, em 1996, a manutenção obrigatória cresceu
para 80%, exceto nas áreas do cerrado, definido em 35%. Na reserva, permite-se
apenas o uso sustentado. Assim manda o figurino florestal. A
agenda preservacionista vai-se impondo e os produtores rurais aceitam recompor
as áreas de preservação permanente nas margens de corpos
dágua. No território paulista, 130 mil hectares de áreas
de preservação permanente foram regenerados na última década.
Isso é sensacional. Na
roça, moleque não mata mais passarinho com estilingue. A caça
saiu de moda, até porque os bichos quase se extinguiram. E a poluição
dos córregos, ao eliminar os peixes, alertou o agricultor, acostumado a
pescar lambaris. Ele aprende agora a produzir água limpa. Para
avançar mais, há que destrinchar um grave enrosco, motivo de forte
polêmica. Nas regiões de agricultura tradicional, no Sudeste e no
Sul, inexiste, na realidade, a reserva florestal. Ocorre que ela foi desmatada
antes do surgimento do Código Florestal. Como preservar o que falta? A
recomendação oficial mais elementar manda cercar a área dos
20%, buscando sua regeneração natural. Crescendo o mato, vêm
os bichos, nascem arbustos, surgem árvores. Sabe-se lá quanto tempo
demora, se é que acontece, a recuperação da mata surrupiada
pelos bisavós. Cobras, ratos e aranhas, com certeza, proliferariam. O
ganho de biodiversidade, entretanto, será desprezível. Mesmo com
replantio de espécies nativas, não faria sentido ecológico
pintar o território com pequenos capões de mato, isolados. Mais
recentemente, em face das dúvidas técnicas sobre essa interdição,
permite-se que a reserva legal, quando inexistente na propriedade, possa ser compensada
em área distante. A idéia é excelente. Se
a floresta foi surrupiada por aqui, que se ajude a conservar por lá. Falta
localizar tais matas substitutas, parecendo exagero, como querem os órgãos
ambientais, que a compensação florestal seja realizada
na mesma microbacia hidrográfica. De qualquer forma, a compensação
florestal embute custo. O produtor rural teria de comprar, longe, outra terra
coberta com mata nativa. Quem paga a conta? A
discórdia poderia ser facilmente encerrada. Basta costurar um acordo entre
ambientalistas e agricultores, patrocinado pelo governo, estabelecendo que 20%
do território do Estado, e não de cada propriedade, seja preservado.
Procedendo-se assim, planejando a recomposição florestal, as áreas
ambientais comporiam verdadeiros corredores ecológicos. São
Paulo apresenta 3,46 milhões de hectares com remanescentes originais da
vegetação, representando 14% de sua área total. Nesse caso,
a tarefa conjunta exige recuperar novo 1,5 milhão de hectares, que deixariam
a produção e serviriam à biodiversidade. Em dez anos o assunto
estaria liquidado. Fica
bom para o agricultor e melhor ainda para a sociedade. Em vez de exigir, o que
dificilmente ocorrerá, que cada agricultor mantenha seu pequeno bosque,
isolado, o Estado recupera 20% de cobertura florestal total. A gosto do Ministério
Público, um ajustamento de conduta acaba a briga entre ambientalistas
e agricultores. Todos ganham. Aristóteles
disse que a esperança é um sonho desperto. Isentos de preconceito,
eliminado o fundamentalismo teórico, constrói-se uma agenda comum,
visando à preservação florestal do País. Se precisar,
muda-se a lei. Senão, basta arregaçar as mangas. Difícil? Primavera
significa esperança. *Xico
Graziano, agrônomo, foi presidente do Incra (1995) e secretário da
Agricultura de São Paulo (1996-98). E-mail: xico@xicograziano.com.br Site:
www.xicograziano.com.br
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