grupo a se extinguir,
pois associou definitivamente seu destino ao nosso. É o cão.
Desde
que o homem se espalhou pela Terra, os grandes carnívoros têm sofrido
com nossa presença. No passado essas espécies competiam com o homem
por alimentos, mas também se alimentavam de nossos ancestrais. São
os leões, tigres e lobos. Na medida em que o homem avançou sobre
os diversos ecossistemas e aos poucos foi invadindo seu hábitat, eles foram
caçados impiedosamente e hoje muitos já se extinguiram ou estão
na lista das espécies em extinção.
A
exceção é o cachorro, que foi capaz de adotar uma estratégia
de sobrevivência exemplar, entregando seu destino ao pior inimigo. Provavelmente
o homem primitivo domesticou o cachorro para aproveitar sua capacidade de vigilância,
do mesmo modo que domesticou as vacas para obter leite e os cavalos para o transporte.
Mas ao contrário desses animais, o cachorro teve a 'astúcia' de
desenvolver uma relação direta com nossa capacidade de criar laços
afetivos. Talvez isso tenha ocorrido por causa do olhar meigo ou da capacidade
de balançar o rabo. Não importa, o fato é que esse foi provavelmente
o animal que melhor explorou essa característica humana.
ADAPTAÇÃO
OPORTUNA
Com o
passar dos anos a função dos cães como guardas perdeu importância
e eles corriam o risco de ter sua população reduzida, como ocorreu
com os cavalos com o surgimento do automóvel. Mas sua conexão direta
com o afeto humano tem garantido o contínuo crescimento da espécie.
Nos países desenvolvidos, o homem criou e sustenta uma indústria
de bilhões de dólares para suprir esses animais com comidas especiais,
roupas, tratamento veterinário, hotelaria e até tratamento psicológico.
Tamanha é a relação de parasitismo dessa espécie com
nossa capacidade de dar afeto que nos países pobres, onde humanos passam
fome, os cães competem com as crianças por comida. São poucas
as sociedades em que esses animais são sacrificados para servirem de alimento.
Mas
para conquistar o privilégio de serem sustentados e protegidos pela espécie
mais poderosa do planeta, eles tiveram de abrir mão de muitos privilégios,
inclusive sua liberdade reprodutiva: muitas raças entregaram aos seus protetores
a liberdade de escolher seus parceiros sexuais. O domínio que esses parasitas
exercem sobre o sistema amoroso de seus hospedeiros é de tal ordem que
a maioria dos humanos realmente acredita que ama seus cães. É impressionante
o sucesso da estratégia evolutiva dessa espécie, talvez o único
caso em que um parasita controla a mente de seu hospedeiro. Reconhecer esse fato
só faz aumentar minha admiração pelos cães.
*fernando@reinach.com
Biólogo