06/setembro/2005
UDR quer frear compra da Swift pelo Friboi
Organização diz que entrará com ação na Justiça Federal contra a participação do BNDES na operação; banco aprovou crédito de US$ 80 milhões para aquisição
 
Agnaldo Brito
 

A UDR Nacional (União Democrática Ruralista), com sede em Brasília, informou ontem que tentará barrar na Justiça Federal a compra do frigorífico Swift Armour S.A., o maior grupo no setor de carnes e embutidos da Argentina, pelo frigorífico Friboi. A holding JBS S.A., controladora desta empresa, confirmou ontem a aquisição do controle da empresa argentina. Procurado, o Friboi não se pronunciou sobre a decisão da UDR de questionar a operação.

A UDR considera ilegal o apoio financeiro que o Friboi receberá do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a compra do concorrente argentino. O banco, por intermédio da

assessoria de imprensa, confirmou, ontem, que liberou um crédito de US$ 80 milhões para o Friboi comprar "no mínimo 75% da Swift Armour S.A.". A operação é histórica.

É a primeira vez que a instituição aprova financiamento deste tipo. O empréstimo não será feito com recursos do FAT, mas com captações internacionais do BNDES, empréstimo que terá condições de reajuste diferentes, baseadas numa cesta de moedas.

Luiz Antonio Nabhan Garcia, presidente da UDR Nacional, afirmou que a organização pedirá ao banco a confirmação da operação e que entrará com uma ação popular na Justiça Federal, em Brasília. Segundo a assessoria jurídica da UDR, a ação virá acompanhada de medida cautelar incidental a partir da qual pedirá uma liminar para impedir a liberação de recursos para o Friboi.

"O primeiro passo é bloquear qualquer liberação de recursos. A partir daí, vamos discutir o mérito da questão. A UDR considera ilegal o banco de desenvolvimento do Brasil financiar a compra de uma empresa concorrente na Argentina.

É um absurdo, uma incoerência, quando temos várias empresas brasileiras solicitando recursos do banco sem sucesso", reagiu Garcia. Os advogados da organização ruralista alegam que a operação é vetada no estatuto do banco.

Na semana passada, a UDR havia reagido à informação de que as negociações estavam em fase final e que o BNDES participaria com aporte de recursos. "Apresentamos uma queixa às comissões de agricultura do Congresso Nacional, tanto na Câmara dos Deputados como no Senado Federal", disse Garcia. Segundo ele, ao financiar a compra, o BNDES auxilia com recursos nacionais o desenvolvimento das exportações da Argentina.

Garcia não quis antecipar o nome, mas disse que a UDR conhece o caso de uma empresa que buscava recursos para investimento no Peru e não conseguiu.

MOTIVOS

O BNDES apresentou pelo menos três razões para ter aprovado a primeira operação de financiamento de compra de ativos por empresas de capital nacional no exterior. Segundo o banco, a iniciativa ajuda a expandir as exportações brasileiras de carne, já que o Friboi poderá aproveitar os mercados atendidos pela Swift Armour, como os Estados Unidos, ou mesmo completar o portfólio de produtos produzidos no Brasil.

Além disso, o Friboi terá de gerar divisas para o País. O BNDES fixou em uma vez e meia o valor liberado, ou US$ 120 milhões, e afirma que entre as alternativas da empresa para obter esse nível de retorno está a utilização de tecnologias de enlatados e embutidos de carne nas unidades industriais do Brasil.

A aprovação da operação também considerou o aspecto concorrencial como motivo para amparar o negócio. A compra do frigorífico Swift pelo Friboi impediu a entrada de concorrentes internacionais no mercado argentino, alegou o BNDES.

Segundo o banco, o ingresso de companhias internacionais na Argentina "reduziria as vantagens competitivas do grupo brasileiro".

Com a compra, o Friboi se torna um dos maiores frigoríficos da América do Sul. No primeiro semestre deste ano, o Friboi respondeu por 20% das exportações brasileiras de carne bovina, que somaram US$ 1,793 bilhão.

A aquisição da Swift, além de tornar o Friboi a primeira multinacional brasileira do setor de carne, dá à empresa um ativo que exporta 70% da produção para mais de 70 países, o que corresponde a 56% de carnes cozidas congeladas e 68% de carnes enlatadas.

 
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo
Caderno Economia - 06/09/05
 
 
 

 

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