adesão
de agricultores da Bahia. Embarques de soja e derivados já estão
sendo prejudicados e firmas exportadoras pagam extras pela demora do carregamento
de navios. Os
próprios agricultores podem perder com as manifestações,
porque atrasam a comercialização da safra e assumem custos de manutenção
de estoques. Mas cálculos desse tipo se tornam desimportantes, quando a
paciência acaba e os protestos se transformam num grande lance político.
Para facilitar essa transformação, parlamentares da bancada ruralista
se mobilizam e se preparam para arrancar do governo o máximo de benefícios.
A demora do governo
em reconhecer e atacar o problema pode mais uma vez impor ao Tesouro um custo
excessivo, muito maior do que seria, se as autoridades agissem na hora certa.
Mais recursos para apoio aos agricultores serão liberados até o
fim do mês, disse ontem o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. O
pacote de R$ 16,8 bilhões anunciado no dia 6 de abril foi insuficiente
para tranqüilizar os agricultores e fazer refluir a onda de protestos. Saiu
com atraso - vinha sendo reivindicado pelo ministro Roberto Rodrigues desde fevereiro
- e foi calculado para resolver parte dos problemas imediatos. O
pacote incluía a renegociação de dívidas de custeio
e de investimento num total de R$ 13 bilhões a R$ 14 bilhões que
os produtores não precisariam pagar neste ano. Pelas últimas informações,
essa renegociação ainda não deslanchou. Providências
de maior alcance ficaram fora do pacote de 6 de abril. Sairiam, segundo o ministro
da Agricultura, em duas ou três semanas, mas ainda não foram apresentadas.
Provavelmente só serão anunciadas depois do Agrishow de Ribeirão
Preto, de 15 e 20 deste mês. Rodrigues, segundo se informou ontem, deverá
passar apenas um dia nessa feira, em vez de lá instalar seu gabinete, como
noutros anos. Desde
o lançamento do último pacote, a situação se tornou
mais preocupante para os agricultores, porque o dólar continuou a cair
no mercado brasileiro. Produtores chegaram a propor a criação de
um câmbio especial para o setor, o que seria uma aberração.
Mas o desajuste
entre custos e remuneração continua a existir, apesar da eficiência
já provada pelos exportadores de soja e de outros produtos agrícolas.
"Se não é possível mexer no câmbio, temos de reduzir
os custos e essa diferença tem de sair da carga tributária",
disse o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, ele próprio um grande
produtor e exportador. Maggi está certo pelo menos quanto a um ponto. É
preciso mexer nos custos que não dependem dos produtores e que afetam o
poder de competição e a rentabilidade. Parte desses custos decorre
da péssima conservação das estradas. Isso explica a adesão
de caminhoneiros, estranha à primeira vista, aos protestos de agricultores
no Centro-Oeste. Outra parcela importante dos custos é vinculada à
tributação irracional, que encarece os insumos. A questão
é particularmente grave e complexa, porque envolve o governo federal e
os estaduais. O custo fiscal de movimentação de produtos entre Estados
já motivou a mudança de unidades processadoras de soja para outros
países. Para
completar, há a questão da insegurança diante dos problemas
do tempo, com seca ou excesso de chuvas. Falta um sistema eficiente de seguro
agrícola. É preciso, admitiu há poucos dias o ministro da
Agricultura, criar um "fundo de catástrofe" para dar lastro a
um sistema razoável de seguro. Com
os produtores novamente mobilizados e com a interferência de parlamentares,
o governo está submetido a enorme pressão. Pode ser forçado
a ceder muito mais do que o necessário para uma justa solução.
Isso ocorreu outras vezes, mas a lição não foi assimilada.
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