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Terras concedidas a grupos
indígenas pertencem à União e não podem ser vendidas,
alugadas ou arrendadas. É o que diz a lei. A realidade, porém, é
outra: aumentam cada vez mais as denúncias de casos de arrendamento de
terras ocupadas por índios. Em várias localidades a situação
é agravada pela ação de caciques que se apoderam do conjunto
das terras do grupo para arrendá-las sozinhos. Uma
vez que os negócios são feitos de maneira informal, não se
sabe ao certo o volume das terras arrendadas. Mas os indícios de que o
problema se agrava estão por toda parte. No Rio Grande do Sul, a Terra
Indígena Ligeiro, com 4.500 hectares, está praticamente sob intervenção
da Fundação Nacional do Índio (Funai) e do Ministério
Público. As instituições tiveram de intervir porque o cacique
e um grupo ligado a ele vinham pressionando as 300 famílias do lugar a
ceder suas terras em troca de pequenos pagamentos, como cestas básicas,
e depois as arrendavam para produtores de soja, que pagavam com fatias da colheita. Um
grupo de 72 famílias que resistiu ao negócio acabou expulso, o que
alertou as autoridades. Para a antropóloga Juracilda Veiga, estudiosa da
cultura caingangue, enviada pela Funai à região do conflito, o arrendamento
era feito de forma disfarçada, como se fosse prestação de
serviços, numa operação facilitada pela ausência do
Estado. Na Paraíba,
o procurador da República Duciran Farena expediu uma recomendação
às usinas de açúcar para que não comprem produtos
oriundos de terras arrendadas pelos índios da região, os potiguaras,
sob risco de serem acusadas de crime de receptação. Os
problemas se agravam nos Estados onde o plantio de soja e a pecuária se
expandiram de forma mais intensa - o que leva os produtores rurais voltarem a
atenção para as terras indígenas. O caso da Reserva de Dourados,
em Mato Grosso do Sul, é exemplar. Tem uma população de 15
mil caiovás, acomodados numa área relativamente pequena, de 3.550
hectares, dos quais 2 mil são arrendados a produtores de soja. A
pressão sobre as reservas aumenta, segundo Anastácio Avakuarahy,
da Comissão de Defesa dos Direitos Indígenas de Mato Grosso do Sul,
todas as vezes que o preço da soja sobe no mercado. A
Funai, freqüentemente acusada de omissão, procura reagir. Em junho
o presidente da instituição, Mércio Pereira Gomes, assinou
uma instrução normativa reafirmando a ilegalidade do arrendamento.
A instrução também contém uma ameaça de apreensão
de tratores que forem encontrados em terras indígenas. Em outubro Gomes
vai a Mato Grosso do Sul para participar de uma reunião sobre a experiência
bem-sucedida de parceria que está sendo levada adiante pelos cadiuéus
(veja ao lado). Para
os defensores dos indígenas, os arrendamentos não atendem a seus
interesses, porque recebem muito pouco e não se desenvolvem. Entre os produtores
rurais afirma-se que o negócio ajuda os índios a sobreviver e facilita
a convivência com os brancos. |