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Às vésperas de finalizar a colheita
de uma safra recorde de soja, a agricultura paranaense
se prepara para sofrer, também, os efeitos
da cultura sobre a economia. Um deles é no
preço das terras rurais. À medida que
a cotação da soja varia, o valor médio
do hectare também costuma oscilar. Mas uma
pesquisa divulgada na última semana mostrou
que, por mais que o preço do grão esteja
em queda, o valor das terras no Estado atingiu um
limite mínimo e vem caindo pouco. E, por não
ser interessante para a venda, as negociações
estão estagnadas.
O levantamento foi feito pela AgraFNP Consultoria,
e refere-se ao primeiro bimestre do ano. A pesquisa
identificou que os preços médios, no
País, estão em R$ 4.599 por hectare,
praticamente estáveis (leve alta de 0,12%)
em relação ao último bimestre
de 2009, mas valorizados em 3,9% na comparação
com os valores de um ano antes.
No Paraná, os valores são bem maiores.
Em janeiro e fevereiro, a cotação estava
em R$ 9.220 por hectare. O valor é 2,07% menor
que os R$ 9.415 de novembro e dezembro do ano passado,
mas 2,29% superior aos R$ 9.014 identificados pela
pesquisa nos primeiros dois meses de 2009.
O último preço levantado é um
pouco menor que a média da região Sul
- os três estados têm as maiores cotações
do País. O valor, de R$ 9.486 por hectare,
teve leve queda em relação aos R$ 9.493
cotados nos últimos dois meses do ano passado.
Nos últimos 12 meses pesquisados, no entanto,
a região teve a maior valorização
do País. No período, os preços
de terras subiram, em média, 7,5%.
Sacas
A analista do mercado de terras da AgraFNP, Jacqueline
Bierhals, explica que, no Paraná, assim como
nos outros Estados do Sul, os valores das áreas
são indexados em sacas de grãos. No
caso paranaense, é a soja que costuma determinar
o valor. Porém, ela afirma que, mesmo com as
recentes quedas nos preços dos grãos,
os preços dos imóveis vêm se sustentando.
"O valor das terras travou [na região
Sul]. As pessoas não querem vender por um preço
muito baixo", diz a analista. Ela dá um
exemplo hipotético de uma área de terra
fértil, que vale 500 sacas por hectare. Se
uma saca de 60 quilos de soja chega a um pico de R$
45 na região, cada hectare da propriedade valerá
R$ 22,5 mil. Se o preço do grão cai
para R$ 31 (valor da última cotação),
de acordo com o Departamento de Economia Rural (Deral)
da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do
Paraná (Seab), a cotação da área
reduz para R$ 15,5 mil. "A esse patamar, ninguém
quer vender", conclui Bierhals.
Estável
De acordo com a analista da AgraFNP, o mercado de
terras no Paraná vem apresentando estabilidade,
e isso pode explicar a diferença nos preços
e variações em relação
aos outros estados sulistas. No Rio Grande do Sul,
por exemplo, os negócios estão um pouco
mais aquecidos devido a um certo rearranjo da produção:
produtores de arroz e soja, principalmente, estão
empurrando a pecuária para outras terras, o
que vem gerando demanda por fazendas com pastagens.
Outro fato comum, segundo Bierhals, é a reavaliação
dos valores, no caso da cotação da soja
persistir em baixa durante muito tempo. Também
é comum não entrar dinheiro algum na
operação, sendo tudo negociado em sacas
mesmo. "E nesse caso é preciso de liquidez
no mercado", afirma, esclarecendo que o vendedor
precisa que, no prazo programado para o pagamento,
a cotação da soja se mantenha em um
bom valor. O comprador, por sua vez, não pode
correr o risco de ver os preços do grão
dispararem entre o fechamento do negócio e
a data do pagamento.
Agora faltam armazéns para produção
Com mais de 92% da safra 2009/2010 colhida, no caso
da soja, e 79%, no caso do milho primeira safra, a
preocupação, em algumas regiões
do Paraná, passou a ser a armazenagem dos grãos.
O problema está no fato dos locais possuírem
capacidade de armazenagem relativamente pequena, se
considerada a safra recorde prevista. A situação
obrigou cooperativas e produtores a improvisarem na
hora de estocar a produção, utilizando
ginásios, pátios e até piscinas
para guardarem os produtos. Mas, apesar do aperto,
a situação, segundo os produtores, já
está sob controle. De acordo com as últimas
estimativas, a safra paranaense de grãos deve
ultrapassar os 30 milhões de toneladas colhidas
no ano, sendo cerca de 20 milhões só
nas safras de verão de soja e milho. Se somados
outros produtos, como o feijão e o arroz, estima-se
que estejam sendo colhidos, atualmente, 22,5 milhões
de toneladas no Paraná. De acordo com o gerente
técnico e econômico da Organização
das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar),
Flávio Turra, a capacidade de armazenagem do
Estado é de aproximadamente 25,5 milhões
de toneladas. O problema é que parte dessa
estrutura ainda é usada para estocar milho
e trigo provenientes de safras anteriores e que ainda
não foram comercializados. "Com a colheita
da safra atual, todos os espaços foram ocupados",
informa. Turra assegura que a qualidade dos produtos
não será afetada pela armazenagem improvisada.
"Nessas condições, eles podem ser
armazenados por até 45 dias", diz. Como
mais de 25% da soja e quase 20% do milho já
foram comercializados, a preocupação
já não é mais tão grande.
Transporte
Apesar de algumas filas de caminhões ainda
se formarem em direção ao Porto de Paranaguá,
Turra não vê grandes possibilidades de
problemas no transporte dos grãos. Para ele,
a não ser que ocorra um período muito
grande de chuvas, a safra deve escoar bem este ano.
Um dos principais motivos apontados por ele para justificar
a tranquilidade é o mercado internacional,
que está forçando uma comercialização
mais distribuída ao longo do ano. A maior causa
disso é um aumento de 40 milhões de
toneladas na produção mundial, que passou
de 210 milhões para 255 milhões de toneladas.
Atualmente, é a produção norte-americana
que está no mercado, que está começando
a abrir espaço aos grãos produzidos
na América do Sul. (HM)
São Paulo e Mato Grosso entre as mais caras
Apesar das terras da região Sul serem as mais
caras do País, os destaques do início
deste ano, segundo a analista do mercado de terras
da AgraFNP, Jacqueline Bierhals, ficaram com São
Paulo e Mato Grosso do Sul. Para ela, os estados começaram
2010 com tendência para reverter antigos movimentos
de desvalorização.
No caso de São Paulo, Bierhals afirma que
o catalisador vem sendo o setor sucroalcooleiro, que
vinha amargando prejuízos nas últimas
duas safras, pelo menos, mas vem dando sinais de recuperação
este ano. Ela diz que os últimos resultados
do setor vêm
surtindo efeitos imediatos no mercado da terra, já
que os investidores do ramo voltam a ter espaço
para investir em propriedades rurais.
Já em Mato Grosso do Sul, as oportunidades
estão aparecendo na região de Três
Lagoas, próxima à divisa com São
Paulo, até a região mais próxima
à capital, Campo Grande. Segundo a analista,
está se formando, no local, um polo forte de
florestas de eucalipto,
destinado à produção de papel,
celulose e carvão.
De acordo com a última pesquisa da AgraFNP,
o preço médio na região Sudeste
teve um ligeiro aumento, passando de R$ 7.844 por
hectare, em novembro e dezembro do ano passado, para
R$ 7.868 por hectare em janeiro e fevereiro deste
ano.
No Centro-Oeste, o preço médio também
subiu pouco no período, passando de R$ 3.446
para R$ 3.487 por hectare.
As cotações mais baratas estão
nas regiões Nordeste (R$ 2.028 por hectare)
e no Norte (R$ 1.423). Esta, porém, teve a
segunda maior alta em 12 meses (5,7%), atrás
apenas do Sul (7,5%).
No Nordeste, a valorização foi de 4%,
no Centro-Oeste, de 3,8% e no Sudeste, de 3,1%.
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