01/03/2010
 
Consumidor pressiona, cada vez mais, pecuaristas para assegurar origem e qualidade da produção
Paola Carvalho


Eles nascem já monitorados por especialistas, logo ganham carteira de identidade e entram para um banco de dados que acompanhará toda a sua trajetória, inclusive depois da morte. O rastreamento do gado, do pasto às prateleiras dos supermercados, toma força no país. A garantia da origem da carne e a certeza de que ela é de qualidade passaram a ser exigências do consumidor brasileiro, antes mesmo de se tornarem requisitos para o produtor alcançar o comércio internacional. E para não ser excluído desse mercado, pecuaristas dão os primeiros passos para adoção de um sistema eletrônico de coleta e armazenamento de dados.


Não será de um dia para outro que todo o rebanho nacional poderá ser identificado. Afinal de contas, o Brasil tem o maior rebanho comercial do mundo, com quase 190 milhões de cabeças de gado. O processo, contudo, precisa ser acelerado. Missão de técnicos da União Europeia (UE) chega, este mês, ao Brasil, líder no ranking de exportação de carne bovina, para verificar fazendas e plantas frigorificas habilitadas à exportação. A inspeção tem como objetivo identificar justamente se as exigências de rastreabilidade estão sendo cumpridas, para que as relações comerciais sejam mantidas. Entre amanhã e o dia 15 receberão as visitas de técnicos europeus fazendas de Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.


Para o secretário da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (SEAPA) de Minas Gerais, Gilman Viana Rodrigues, Minas está mais que preparada para receber os fiscais da UE. "O estado tem pouco mais de 10% do rebanho brasileiro, mas representa um terço das fazendas credenciadas do país. Das 1.891 propriedades da lista, 639 estão aqui. Não é à toa que somos os maiores exportadores para a UE. Nosso trabalho é rigoroso, por isso não temos nada a temer", disse. Ele explicou que os técnicos checam a situação das propriedades enquadradas no Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina (Sisbov) e verificam a situação sanitária. Entre as exigências previstas no programa de rastreabilidade está a adoção de brincos ou chips eletrônicos para a identificação dos bovinos, bem como o seu registro por um período mínimo de 90 dias na base de dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).


A exigência alimenta o mercado. Rastrear o gado do pasto até o prato é o negócio da mineira Safe Trace. Dois jovens da Universidade Federal de Itajubá criaram em 2005 - quando o mundo sofria surtos do mal da vaca louca, que restringiu a circulação de carne produzida em países acometidos pela doença, reduzindo sensivelmente o comércio internacional - uma tecnologia de identificação por rádio frequência para informar ao cliente a procedência da carne. A Fir Capital, gestora de fundos de venture capital do qual faz parte o mineiro Guilherme Emerich, comprou a ideia e aperfeiçoou o modelo. "O projeto tinha uma fragilidade: identificava o caminho somente até o frigorífico. Hoje, é possível rastrear desde o nascimento até o pedaço da carne na bandeja do supermercado", disse Rodrigo Argueso, economista que era sócio-gestor da Fir Capital até assumir a presidência da Safe Trace.


Quase cinco anos e R$ 5 milhões de investimentos depois, os parceiros chegaram ao produto final: um chip que pode vir em forma de brinco eletrônico ou do chamado bólus, uma cápsula de cerâmica engolida pelo boi. Com a implantação, as informações são cadastradas e ficam disponíveis na internet. São dados como a propriedade em que nasceu, sexo, peso, vacinas. Na prateleira do supermercado, o consumidor encontra na bandeja de carne uma etiqueta com o código de barras e um número que remete ao animal que originou o produto. "O sistema garante o cumprimento das exigências da União Europeia e também atende o consumidor brasileiro, que a cada dia mais se assemelha com a demanda do consumidor europeu", afirmou. O supermercado Verdemar foi o primeiro a oferecer aos clientes carne rastreada da fazenda à gôndola com a auditoria da Safe Trace. O Super Nosso foi atrás. Para o consumidor final, o quilo da carne custa até R$ 0,50 mais caro. Mas, ao que tudo indica, clientes estão dispostos a pagar mais.

 
Fonte: ESTADO DE MINAS - MG
 
 
 

 

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