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DENIS LERRER ROSENFIELD
A Confederação Nacional da Agricultura
(CNA), numa iniciativa primorosa de sua presidente,
senadora Kátia Abreu, criou, neste mês
de fevereiro, o Observatório das Inseguranças
Jurídicas, voltado para um levantamento da
insegurança jurídica no campo brasileiro.
Temos observado nos últimos anos o direito
de propriedade ser pisoteado, como se ele fosse uma
espécie de usurpação e não
a condição mesma de sociedades livres.
O evento contou com a presença do presidente
do Supremo, ministro Gilmar Mendes, que fez uma bela
conferência sobre os direitos fundamentais de
um Estado democrático, mostrando o protagonismo
da mais alta Corte de nosso país na defesa
das liberdades e do estado de direito. Convém
frisar que o ministro Gilmar Mendes tem se destacado
na defesa do ordenamento constitucional do país,
das liberdades fundamentais e da segurança
jurídica. Nada aparentemente fora do lugar,
senão algumas reações, que bem
mostram a dificuldade do país no amadurecimento
do estado democrático de direito.
Em artigo publicado no dia 19 de fevereiro no "Jornal
do Brasil", o jurista Dalmo Dallari tomou as
dores dos movimentos sociais, a saber, do MST e das
Pastorais da Igreja, e investiu pesadamente contra
o ministro Gilmar Mendes e a senadora Kátia
Abreu. Chegou, inclusive, a qualificar o acordo assinado
entre a CNA e o Conselho Nacional de Justiça
(CNJ), tendo como objetivo a segurança jurídica,
de "corrupção institucional".
Por que uma reação tão virulenta
em relação a um acordo que nada mais
faz do reforçar o que é assegurado pela
própria Constituição? O argumento
apresentado, se é que se pode dizer que seja
um argumento, é o da presença do presidente
do STF numa entidade empresarial, cujo setor responde
por mais de 1/3 do PIB e tem sido objeto de invasões,
sequestros e violências dos mais diferentes
tipos, patrocinadas pelo MST, pela Comissão
Pastoral da Terra (CPT) e pelo Conselho Indigenista
Missionário (Cimi). É como se os presidentes
do STF e do CNJ não pudessem - e devessem -
defender o direito de propriedade e as liberdades
fundamentais. O que causa espanto é que tal
"indignação" não se
faça em relação ao presidente
da República, que, reiteradas vezes, recebeu
esses ditos movimentos sociais cujas práticas
cotidianas são o crime e o ilícito.
Quem respeita a Constituição é
condenado, quem a desrespeita, elogiado.
Causa ainda surpresa o eminente jurista se insurgir
contra o fato de Kátia Abreu ser senadora e
presidente de uma entidade empresarial. Reinaldo Azevedo,
com muita propriedade e ironia, observou, em seu blog,
que a mesma indignação não se
fez presente em relação a outros presidentes
de Confederações de empresários
e trabalhadores, que acumulam funções
parlamentares e de representação sindical.
Por que uma indignação tão particular?
Por que o silêncio em relação
ao aparelhamento sindical do Estado, tomado por sindicatos
e movimentos sociais? Silêncio tanto mais assustador
que ele se faz a propósito da captura de órgãos
do Estado pelos ditos movimentos sociais. O MST e
a CPT estão particularmente presentes no Ministério
do Desenvolvimento Agrário, em particular no
Incra e na Ouvidoria Agrária Nacional. Esses
órgãos se tornaram verdadeiros focos
de insegurança jurídica. Denúncias
de corrupção e de desvio de recursos
públicos são cada vez mais abundantes,
favorecendo esses movimentos sociais que são,
assim, financiados pelos próprios contribuintes,
que têm suas propriedades invadidas. Sobre essa
verdadeira corrupção, institucional
e financeira, o silêncio é ensurdecedor.
A senadora Kátia Abreu foi qualificada de "lobista
notória". A qualificação
é tanto mais interessante pelo fato de o eminente
jurista ter participado de uma mesa redonda na mesma
CNA a convite da mesma senadora. O evento ocorreu
em 10 de novembro de 2009 e teve como tema "O
direito de propriedade e os índices de produtividade".
Participei dessa mesma mesa redonda e não ouvi
nada desabonador em relação à
CNA, nem à senadora.
Aliás, as relações foram muito
cordiais.
Por que esse arroubo? Ou seja, o ministro Gilmar Mendes
não deveria ter aceito o convite de comparecer
a essa entidade empresarial na assinatura de um acordo,
enquanto o dr. Dalmo Dallari não se constrange
em se reunir com uma "lobista notória".
A CNA se mostra pluralista, os seus críticos
exibem o seu viés dogmático.
Aliás, em sua intervenção na
CNA, o Dr. Dalmo Dallari não teceu nenhuma
crítica às invasões do MST e
da CPT por todo o Brasil, contentando-se com generalizações
sobre a necessidade da reforma agrária. Mesmo
provocado, disse desconhecer o caráter marxista
do MST e das Pastorais da Igreja, apoiadas pela Teologia
da Libertação.
Até o atual Papa já criticou o marxismo
da Teologia da Libertação, mostrando
a sua incompatibilidade com a doutrina cristã.
Tal "desconhecimento" é tanto mais
preocupante pelo fato de esses ditos movimentos sociais
serem verdadeiras organizações políticas,
que procuram implantar no Brasil o socialismo/comunismo.
Basta a leitura dos documentos e manuais dessas organizações,
algo não difícil de ser feito. O material
é abundante. Seu objetivo consiste em subverter
a ordem constitucional, começando pela relativização
do direito de propriedade, pela não obediência
ao estado de direito e pelo desrespeito às
instituições democráticas.
Se o Observatório das Inseguranças Jurídicas
já causa tanta reação, é
porque ele rompe com o monopólio da informação,
até agora em poder das Pastorais da Igreja,
que vinham se arrogando a posição de
porta-vozes morais do campo brasileiro. Na verdade,
vinham acobertando e justificando a violência
e a insegurança jurídica; vinham formando
a opinião pública nacional e internacional.
Doravante, serão obrigadas a escutar outras
vozes, ao pluralismo. Bem vindo seja o Observatório
das Inseguranças Jurídicas, e que essa
iniciativa possa ser também ampliada às
cidades e a outros setores da vida nacional.
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