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- por Mauro Santayana
O CLIMA DE CAMPANHA realmente já começou.
E para o comportamento dos presidenciáveis
haverá sempre a interpretação
sobre aonde eles querem chegar, que intenções
estão por trás desta ou daquela atitude.
Num mesmo dia, a última terça-feira,
a pré-candidata do governo, Dilma Rousseff,
deu duas declarações curiosas. Dois
sinais interessantes.
O primeiro: Dilma, em entrevista a uma rádio
pernambucana, ao ser questionada se vestiria a camisa
e o boné do MST, tal como já fez o presidente
Lula, disse que não. "Acho que não
é cabível vestir o boné do MST.
Governo é governo, movimento é movimento.
Não concordo que alguém do governo
assuma a bandeira do MST", afirmou.
O segundo: num jantar oferecido a ela pelo deputado
federal Eunício Oliveira (PMDB-CE), com a participação
de vários políticos aliados, Dilma,
cuja fama é de sisudez, soltou-se nas brincadeiras,
e chegou até a fazer um galanteio ao deputado
Fábio Faria (PMN-RN), dizendo que a namorada
dele "tem muito bom gosto". Faria vem a
ser o namorado de Sabrina Sato, ex-modelo, ex-BBB
e repórter aloprada do programa humorístico
Pânico na TV. Atualmente, Sabrina está
no encalço de Dilma e de José Serra
para ver qual dos presidenciáveis executa primeiro
os passos do rebolation, dança que se tornou
o hit do Carnaval deste ano. Dilma aproveitou o encontro
com o deputado e pediu a ele para avisar à
namorada que aceitará dançar o rebolation
depois da campanha.
Mas o que esses dois momentos de Dilma, o do boné
do MST e o do rebolation, aparentemente sem nenhuma
conexão, teriam em comum? A resposta é
simples: Lula. Tanto em um, quanto em outro, é
a sombra do presidente que está por trás
do comportamento da ex-ministra. Nos dois episódios,
Dilma mostra a dupla missão que enfrenta como
candidata. Precisa se diferenciar e, ao mesmo tempo,
se aproximar do estilo de Lula. Precisa provar que
tem ideias próprias (não usaria o boné
do MST como o padrinho). E precisa emular o estilo
carismático, popular do presidente (quando
age com descontração, ao lisonjear a
beleza de um deputado e indicar que é capaz
até de "pagar um mico" e dançar
os passos da moda).
Para isso, para desmontar a pecha de séria,
sisuda, Dilma conta com o convívio e o incentivo
do próprio Lula.
Quando não de um empurrão "muy
amigo" do presidente.
Numa incursão do Pânico na TVatrás
da petista, durante encontro do PCdoB para apoiar
a pré-candidata, Lula, ao avistar a equipe
do programa, puxou Dilma pelo braço e levou-a
até a beira do palco onde estavam, para ser
"entrevistada" por Sabrina Sato, que foi
direto ao ponto e pediu para a ex-ministra pagar a
prenda.
Dilma recusou, mas de modo sorridente. O episódio
pode parecer banal, mas mostra como Lula funciona,
no dia a dia, como um professor de traquejos políticos,
a ponto de jogar sua candidata numa saia-justa, para
que ela aprenda a fazer campanha e cultivar uma imagem
favorável.
Em contraste, José Serra, também procurado
pelo programa, durante o lançamento de sua
pré-candidatura, saiu em disparada, em passos
apressados, esquivando-se da abordagem, fisionomia
fechada, deixando para trás uma confusão
entre seguranças e jornalistas.
Um presidenciável, obviamente, não
é obrigado a ceder a todos os apelos para divulgar
sua imagem na grande massa. Mas simpatia e cordialidade
contam. Numa disputa tão acirrada como a que
se espera, podem fazer diferença na decisão
do eleitor.
O carisma, uma das três fontes de legitimação
do poder segundo Weber, é importante trunfo
para qualquer político, ainda que não
seja tudo, dependendo das circunstâncias. Um
exemplo é a campanha do ex-presidente Néstor
Kirchner à Presidência da Argentina,
em 2003. Com o país em crise e tendo um candidato
conhecido pela carranca, pelo mau-humor, os marqueteiros
de Kirchner inverteram a situação.
Admitiram que ele era, de fato, sério, sem
sal, e nos spots na TV alternavam imagens dos adversários
sorridentes e cenas de miséria, perguntando
ao final: "Do que eles estão rindo?".
Fizeram do limão uma limonada. De um jeito
ou de outro, campanha é sempre rebolation para
os políticos.
Nos dois episódios, a sombra de Lula está
por trás do compor tamento de Dilma.
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