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Com
medo de prejuízo e do efeito na queda do preço
das commodities, multinacionais adiam a compra antecipada
da safra de grãos 2008/2009 Luciano Pires
Faltando
apenas dois meses para o início do plantio
da safra 2008/2009, a venda antecipada de grãos
está praticamente estagnada no país.
Importante fonte de financiamento do agronegócio,
a comercialização do que só será
colhido no próximo ano é um dos alicerces
da produção brasileira. Sem esse dinheiro,
que sai do bolso dos grandes compradores multinacionais
chamadas de tradings , o agricultor não
consegue ir muito longe.
O
paradão, avaliam os analistas,
é culpa da grande volatilidade do mercado mundial
de commodities. As empresas que atuam nesse segmento
tiraram o pé do acelerador, retardaram o fechamento
de contratos futuros, porque não conseguem
prever com segurança qual será o comportamento
dos preços de itens como soja e milho
as grandes estrelas do campo neste ano. Na safra passada,
as companhias lucraram menos do que o previsto, por
isso existe o temor natural de fixar valores.
Em
Mato Grosso, maior produtor de soja do Brasil, a venda
antecipada despencou. No ano passado, nessa mesma
época, 40% da safra já haviam sido negociados.
Agora, esse índice é de 3%. O
pessoal está com dificuldade de obter crédito,
resume Glauber Silveira, presidente da Associação
dos Produtores de Soja do Estado de Mato Grosso (Aprosoja).
Com a alta dos custos de produção, em
especial dos fertilizantes, o cenário deverá
piorar, prevê a entidade.
Por
enquanto, explica Silveira, ninguém no estado
fala em reduzir área plantada ou pensa em migrar
para outra cultura. O Mato Grosso não
vai ficar sem plantar. A turma pode jogar a semente
na terra sem adubo, diminuir o uso de tecnologia.
Tem gente comprando fertilizante até fiado,
completa. De acordo com ele, diante de tantas indefinições,
é difícil apostar até quando
as vendas antecipadas em troca de recursos financeiros
à vista continuarão em marcha lenta.
Há
mais ou menos dois meses, o governo federal anunciou
a liberação de R$ 78 bilhões,
dentro do Plano de Safra, para o ano agrícola
2008/2009. A notícia não chegou a empolgar
o setor. Apesar de expressivo, esse montante não
é suficiente para financiar o plantio e a colheita.
Ainda mais em momentos de turbulências. Tendo
que gastar mais para produzir, o agroempresário
calcula que os recursos oficiais só cobrirão
25% de tudo o que é necessário em termos
de financiamento da atividade. O resto vem de fontes
privadas e até do próprio caixa do produtor.
Demora
na regulação
No
ano passado, a Confederação da Agricultura
e Pecuária do Brasil (CNA) fez uma pesquisa
e constatou que a venda antecipada é a tábua
de salvação para grande parte dos agricultores
endividados. Recentemente, o governo federal anunciou
a maior renegociação de dívidas
rurais já autorizada no país. Foram
concedidos novos prazos e baixadas regras para sanear
um passivo de R$ 75 bilhões acumulado ao longo
de 25 anos.
A
regulamentação do pacote, no entanto,
está emperrada porque a medida provisória
que trata desse tema, a MP 432, ainda não foi
votada pela Câmara dos Deputados. A demora é
fruto de uma intrincada negociação política
que coloca em lados opostos os partidos que apóiam
o governo e os que são de oposição.
Os ruralistas, representados por uma bancada de cerca
de 200 parlamentares, cobram mudanças nas regras
e advertem que se o sistema não for aperfeiçoado
logo, a safra 2008/2009 corre riscos de ficar comprometida.
Produtores
de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Rio Grande
do Sul e Paraná reclamam que há pouca
clareza sobre as perspectivas de financiamento da
safra que se aproxima. Entidades que representam o
agronegócio nesses estados justificam que os
recursos oficiais ainda não estão sendo
aplicados. Com o financiamento privado empacado, a
recomendação geral é que o produtor
fique ainda mais atento. As tradings estão
muito criteriosas. Os produtores precisam ter cuidado,
calcular bem os custos, explica Rosemeire dos
Santos, assessora técnica da CNA.
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