28/julho/2008
 

Com medo de prejuízo e do efeito na queda do preço das commodities, multinacionais adiam a compra antecipada da safra de grãos 2008/2009 Luciano Pires

Faltando apenas dois meses para o início do plantio da safra 2008/2009, a venda antecipada de grãos está praticamente estagnada no país. Importante fonte de financiamento do agronegócio, a comercialização do que só será colhido no próximo ano é um dos alicerces da produção brasileira. Sem esse dinheiro, que sai do bolso dos grandes compradores — multinacionais chamadas de tradings —, o agricultor não consegue ir muito longe.

O “paradão”, avaliam os analistas, é culpa da grande volatilidade do mercado mundial de commodities. As empresas que atuam nesse segmento tiraram o pé do acelerador, retardaram o fechamento de contratos futuros, porque não conseguem prever com segurança qual será o comportamento dos preços de itens como soja e milho — as grandes estrelas do campo neste ano. Na safra passada, as companhias lucraram menos do que o previsto, por isso existe o temor natural de fixar valores.

Em Mato Grosso, maior produtor de soja do Brasil, a venda antecipada despencou. No ano passado, nessa mesma época, 40% da safra já haviam sido negociados. Agora, esse índice é de 3%. “O pessoal está com dificuldade de obter crédito”, resume Glauber Silveira, presidente da Associação dos Produtores de Soja do Estado de Mato Grosso (Aprosoja). Com a alta dos custos de produção, em especial dos fertilizantes, o cenário deverá piorar, prevê a entidade.

Por enquanto, explica Silveira, ninguém no estado fala em reduzir área plantada ou pensa em migrar para outra cultura. “O Mato Grosso não vai ficar sem plantar. A turma pode jogar a semente na terra sem adubo, diminuir o uso de tecnologia. Tem gente comprando fertilizante até fiado”, completa. De acordo com ele, diante de tantas indefinições, é difícil apostar até quando as vendas antecipadas em troca de recursos financeiros à vista continuarão em marcha lenta.

Há mais ou menos dois meses, o governo federal anunciou a liberação de R$ 78 bilhões, dentro do Plano de Safra, para o ano agrícola 2008/2009. A notícia não chegou a empolgar o setor. Apesar de expressivo, esse montante não é suficiente para financiar o plantio e a colheita. Ainda mais em momentos de turbulências. Tendo que gastar mais para produzir, o agroempresário calcula que os recursos oficiais só cobrirão 25% de tudo o que é necessário em termos de financiamento da atividade. O resto vem de fontes privadas e até do próprio caixa do produtor.

Demora na regulação

No ano passado, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) fez uma pesquisa e constatou que a venda antecipada é a tábua de salvação para grande parte dos agricultores endividados. Recentemente, o governo federal anunciou a maior renegociação de dívidas rurais já autorizada no país. Foram concedidos novos prazos e baixadas regras para sanear um passivo de R$ 75 bilhões acumulado ao longo de 25 anos.

A regulamentação do pacote, no entanto, está emperrada porque a medida provisória que trata desse tema, a MP 432, ainda não foi votada pela Câmara dos Deputados. A demora é fruto de uma intrincada negociação política que coloca em lados opostos os partidos que apóiam o governo e os que são de oposição. Os ruralistas, representados por uma bancada de cerca de 200 parlamentares, cobram mudanças nas regras e advertem que se o sistema não for aperfeiçoado logo, a safra 2008/2009 corre riscos de ficar comprometida.

Produtores de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná reclamam que há pouca clareza sobre as perspectivas de financiamento da safra que se aproxima. Entidades que representam o agronegócio nesses estados justificam que os recursos oficiais ainda não estão sendo aplicados. Com o financiamento privado empacado, a recomendação geral é que o produtor fique ainda mais atento. “As tradings estão muito criteriosas. Os produtores precisam ter cuidado, calcular bem os custos”, explica Rosemeire dos Santos, assessora técnica da CNA.

 
Fonte: Correio Braziliense
 
 

 

 

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